quinta-feira, 4 de agosto de 2016


O ENSAIO DA FANFARRA EM GLÓRIA!

Em agosto de 2010 fiz uma viagem nostálgica a Cornélio Procópio, cidade do norte pioneiro paranaense, onde vivi parte da infância e minha adolescência. Fui lá matar saudades, rever lugares, reencontrar amigos e destilar reminiscências.

Naquela oportunidade, optei por viajar de ônibus, para apreciar a paisagem mais atentamente. Tomei um ônibus na cidade em que moro no estado do Rio até o terminal rodoviário Tietê de São Paulo. Embarquei num trem do metrô, para tomar outro ônibus para o Norte do Paraná, no terminal Barra Funda. Quando subia as escadas deste terminal, para acessar os guichês de venda de passagens da saudosa Viação Garcia, deparei-me com um enorme cartaz de propaganda da OI - de uns 3m x 5m. O painel estampava um rapaz ligando para alguém de um celular e na parte inferior, em letras gigantes, a seguinte mensagem: QUEM VIAJA TEM ASSUNTO.

Quem viaja tem assunto - e destila lembranças e revive momentos, acrescento.

Seis anos depois daquela inesquecível viagem ao norte paranaense, chego a Nossa Senhora da Glória, no alto sertão do estado de Sergipe, para participar de mais uma etapa de um projeto do qual estou fazendo parte.

Foto: Marcelo Brandão.

Cheguei no início da noite na cidade, deixei a mala no hotel e saí para almoçar/jantar, pois sobrevivera propositadamente o dia apenas com o café da manhã. Num shopping com o mesmo nome do hotel – Avelan –, situado nas suas proximidades, encontrei uma praça de alimentação. Resolvida a necessidade básica da hierarquia de Maslow, resolvi dar um giro pela cidade, a pé, algo que tenho primado em fazer em minhas viagens, nessa nova etapa da vida (já aposentado, mas ainda procurando contribuir profissionalmente País afora).

Na Praça onde se localizam a Câmara dos Vereadores e a Prefeitura, encontrei um grande rebuliço. Equipamentos de diversão – roda gigante, carrinhos elétricos, brinquedos diversos para crianças, barracas várias – estavam sendo descarregados de grandes carretas e alguns já se encontravam em processo de montagem. Informei-me sobre a movimentação e descobri tratar-se de preparativos para a festa da padroeira da cidade. Ouvi um barulho de fanfarra na rua próxima e fui conferir. Era um ensaio, ao que tudo indica de alunos de um colégio, provavelmente se preparando para desfilar na abertura da festa.

Foto tirada no dia seguinte.

Destilei lembranças e revivi, emocionado, os ensaios dos quais participava, batendo bumbo, na fanfarra do saudoso Colégio Estadual Castro Alves, de Cornélio Procópio. Primorosos ensaios para os memoráveis desfiles de 7 de setembro naquela cidade norte paranaense, cuja fanfarra do Castro Alves era, na minha época, majestática e eficientemente comandada pelo animadíssimo Professor Antonio do Bonfim. Do seu pai, o respeitabilíssimo Prof. Auxêncio Felix do Bonfim, fui também aluno, no Instituto Procopense de Ensino, onde, durante décadas, o mestre baiano preparou centenas de meninos e meninas para enfrentar o Exame de Admissão ao Ginásio.

Acompanhei o ensaio dos adolescentes de N. Sra. Da Glória, até a escadaria do hotel, onde parei, ofegante de emoção... Destilando as lembranças de meio século e revivendo mentalmente aqueles momentos pretéritos, subi para o apartamento em que estava instalado no terceiro andar e redigi este texto. Estou certo de que antes de dormir vou ainda reprisar na mente e no coração aqueles ensaios e desfiles de fanfarra no Castro Alves. E quiçá sonhar com eles...

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Na Paraíba do meu saudoso pai

Desembarquei no final da tarde do dia 1º de junho no aeroporto da capital paraibana, localizado em Santa Rita, município contíguo ao de João Pessoa. A Paraíba, estado de origem dos autores de Menino de Engenho, do Auto da Compadecida, e de Formação econômica do Brasil é também berço de Zé Joaquim, meu saudoso pai. Nasceu no município de Pombal, terra do intelectual de muitas obras, o cosmopolita Celso Furtado, mentor, implementador e primeiro dirigente da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – Sudene (criada em 1959, extinta em 2001 e recriada em 2007).

Embarquei no carro que estava a minha espera e entabulei de imediato uma conversa com o motorista. Falamos do estado, da cidade, da família, do trabalho e de amenidades. Tivemos alguma dificuldade para localizar o hotel que reservara às pressas, já no avião, no Rio de Janeiro, com apoio do Candeias, rede hoteleira à qual me associei em 1972, ainda nos primórdios. A fachada do hotel, situado na praia de Cabo Branco, estava em reforma, e sem placa. Depois de pedir informação em outros hotéis da orla, finalmente encontramos o Netuanah – nome que memorizei na forma de uma pergunta: Né tu Ana?

Cumprido o procedimento de entrada no hotel e superados pequenos contratempos com luzes e controles, arriei as bagagens no apartamento, atravessei a Avenida Cabo Branco e fui tomar um lanche e apreciar o mar num quiosque em frente. Puxei logo prosa com o rapaz que me atendeu. Proveniente do município de Ingá, era recém-chegado à capital; pertence a uma família de 14 irmãos e o trabalho no quiosque era a sua primeira experiência laboral. Retornei em seguida ao hotel e tratei do dever de casa para a reunião que teria no dia seguinte numa das secretarias do estado. Dormi cedo, para o meu padrão “altas horas” de recolher-me.

Praia de Cabo Verde.

No dia seguinte, um assessor do Secretário que me receberia à tarde apanhou-me no hotel e levou-me para conhecer o centro de convenções que o estado está terminando de construir, o qual sediará, ainda este ano, um mega evento internacional. Fiquei realmente impressionado com as dimensões físicas e os múltiplos espaços do empreendimento. Meu velho, se ainda fosse vivo e tivesse tido a oportunidade de conhecê-lo, certamente mostrar-se-ia incrédulo diante de tão grandiosa obra na sua Paraíba.

Concluída a visita, fomos para a Secretaria, preparar a reunião que teríamos à tarde com o Secretário de Estado, para tratar da realização de um estudo institucional florestal/ambiental. Cumprida a agenda, deixaram-me no hotel. De novo atravessei a rua e fui refestelar-me em uma cadeira do mesmo quiosque da noite anterior. Fiquei lá algum tempo a observar: o mar, a praia, as pessoas caminhando no calçadão e pedalando na ciclovia anexa à avenida que margeia a praia. Crianças, adolescentes, jovens e pessoas da terceira idade desenvolviam suas atividades físicas só, em grupos ou acompanhados de familiares. Observei também o gabarito dos prédios ao longo da avenida, os quais na primeira quadra não ultrapassam quatro andares. Padrão bem mais civilizado urbanisticamente do que o da orla de outras capitais nordestinas: Fortaleza, Salvador e Recife, principalmente.

Mesmo cansado, ainda organizei no computador os arquivos que iria utilizar no dia seguinte, em Campina Grande. Lá, faria no Instituto do Semiárido – INSA, uma apresentação de encerramento de um curso de manejo florestal da caatinga. Como na noite anterior, recolhi-me também relativamente cedo, para encarar descansado a viagem e agenda dia seguinte.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

12º Congresso Florestal Estadual do Rio Grande do Sul

Na segunda semana de maio, estive em Nova Prata, participando do 12º Congresso Florestal Estadual do Rio Grande do Sul. Convidado por Doádi Antônio Brena, fiz a palestra de abertura, abordando o tema “Política florestal no Brasil”.
Foto: Yeda Maria Malheiros de Oliveira.

Mister Brena, como costumo chamá-lo, organiza o evento desde a primeira versão ocorrida em 1968. Somos amigos há décadas. Conhecemo-nos no mestrado, ainda solteiros, e nos reencontramos no doutorado, já casados e com filhos. Foi duplamente profícuo o nosso convívio: acadêmico e familiar. Tivemos ainda o privilégio de concluir nossos doutorados sob a batuta do mesmo orientador – Prof. Sylvio Péllico Netto, o Papa do inventário florestal em nosso País.

Profs. Sylvio e Doádi (1ª fila, D>E)
Foto: Vanice Dal Magro/Assessoria de Imprensa PMNP.


Encontrei, no evento, alguns colegas da minha turma de graduação: Yeda Maria Malheiros de Oliveira, Maurício Ballenssiefer, Henrique Rogério Branco do Amaral. Também velhos amigos e dezenas de conhecidos da universidade em que estudei (UFPR) e de outras tantas. Além do querido e respeitado orientador, Prof. Sylvio Péllico, mostrando uma disposição invejável para o trabalho do alto dos seus 70 e tantos.

Na tarde do dia 12 fui visitar a Feira da Floresta, um dos quatro eventos agregados ao Congresso. Ao deixar o local, perguntei a dois senhores que conversavam na rua fronteiriça como chegar a pé ao hotel em que eu me hospedara. Cordialmente, um deles se ofereceu para levar-me ao local. Aceitei a carona. No percurso a pé até o carro, o mais idoso revelou que eu estava na companhia do vice-prefeito e do prefeito da cidade. Pois o prefeito não só me levou ao hotel como fez também a gentileza de esperar-me. Fora eu me livrar de um incômodo computador que carregava, retornando em seguida para o local do evento.

Prefeito de Nova Prata, Volnei Minozzo
Foto: Vanice Dal Magro/Assessoria de Imprensa PMNP.

Obrigado prefeito Volnei Minozzo, pela cordialidade e acolhida! O Brasil seria muito melhor se a maioria dos prefeitos dos seus 5.565 municípios tivesse a sua simplicidade e hospitalidade.

Obrigado Mr. Brena, pelo convite e pela oportunidade de reencontrar amigos, colegas e conhecidos - e, evidentemente, você, Tânia e Aline!

domingo, 9 de novembro de 2014

Lançamento de livros


No dia 22 de outubro, em evento realizado na UFRRJ, lancei um livro e anunciei que outro sairia em breve. No dia 12 de novembro, lancei ambos os livros no Simpósio Nacional do Inventário Florestal, realizado em Manaus - AM
Estórias para entreter florestais e congêneres
contém estórias vividas por mim e compartilhadas com alunos, colegas de trabalho, profissionais de outras áreas, familiares, parentes, aderentes, conhecidos, desconhecidos... São estórias que compõem parte da minha própria história de vida, dos meus 37 anos de atuação profissional: na engenharia florestal, na administração pública e no ensino universitário.
Anexo a seguir o SUMÁRIO do livro, para os interessados tomarem conhecimento do conteúdo.



Organizações da administração florestal federal no Brasil: e(in)volução 1912-2014,
Contém um resgate histórico destas organizações, desde 1912, quando surgiu a primeira delas. O conteúdo está fundamentado em extensa e exaustiva pesquisa documental relativa aos atos de origem, extinção, regulamentadores e regimentais; e complementada por consultas a outras fontes. Segue o Sumário, para os interessados no tema:


Os livros podem ser adquiridos:
Na Livraria do P1, na UFRRJ;
Na Livraria VEREDAS, do Shopping Pontual de Volta Redonda;
Na Livraria FOLHETIM, do Shopping Figorelle de Barra Mansa;
Na Livraria Nacional, rua 24 de Maio, 415, Centro, Manaus, Amazonas.
Ou diretamente, enviando um e-mail para: ciromaxi@uol.com.br

domingo, 18 de maio de 2014

Em Vilhena, três décadas depois

Fui participar do 2º Seminário sobre Florestas Plantadas em Rondônia, realizado nos dias 8 e 9 de maio em Vilhena. Desembarquei no acanhado aeroporto da cidade por volta da 14 horas de uma quinta feira, onde fui recepcionado por simpáticas engenheiras florestais da equipe organizadora do evento. Reunidos os outros dois palestrantes que chegaram no mesmo voo que eu, conduziram-nos a um shopping, para almoço. Depois, o motorista levou-nos ao hotel, para um breve descanso.

Eu passara a noite em claro, pois para tomar um voo às 6h13 no aeroporto Antonio Carlos Jobim, no Rio de Janeiro, saíra às 2h da madrugada, de táxi, da cidade em que moro no interior do Estado. O primeiro trecho aéreo compreendeu Rio-Campinas e embora o voo seguisse para Cuiabá, tive que desembarcar em Viracopos. Perguntei à chefe das comissárias qual era a razão do procedimento e ela me informou que devido ao dilatado tempo da escala era inconveniente manter os passageiros na aeronave. Considerei razoável a explicação e fui circular pelas lotadas salas de embarque e puxadinhos do aeroporto. Percebi então a precariedade das instalações, dos espaços e dos serviços. Cerca de uma hora depois reembarquei no jato brasileiro EMB-195 de 128 lugares, no qual prossegui até Cuiabá. A demorada conexão na capital mato-grossense permitiu-me tomar um lanche, perambular pela praça de alimentação, ver as obras no estacionamento do aeroporto. Obras que estão sendo executadas “a toque de caixa” - situação que se repete em outros aeroportos brasileiros. Uma hora e vinte mais de voo, agora num ATR 72-500, turboélice ítalo-francês de 68 lugares, cheguei àquela simpática cidade da Amazônia onde estivera a última vez fazia mais de 30 anos. Considerando o percurso terrestre, a segmentada viagem consumiu-me 12 horas, tempo correspondente ao de um voo do Rio de Janeiro para Frankfurt, na Alemanha.

A abertura do evento, programada para as 19 horas, começou com mais de duas horas de atraso, num auditório de 800 lugares da Associação Vilhenense de Educação e Cultura – AVEC, uma faculdade local. Compuseram a mesa o governador e um senador do Estado e vários outros políticos, além de representantes de entidades da área florestal. Com cerca de 20 'autoridades' compondo a mesa, a abertura, com muita falação e discursos vários, foi longa. Na continuidade, foram apresentadas duas palestras.

No dia seguinte, “dei meu recado” de manhã, como segundo palestrante; falei sobre Políticas Públicas para Florestas Plantadas. Fiz uma abordagem do tema situando-o no passado, no presente e no futuro e aproveitei para recordar quatro momentos marcantes da minha trajetória profissional vividos em Rondônia. Senti-me honrado em ter como ouvintes o Senador Valdir Raupp – que assistiu toda a palestra - e o governador do Estado, Confúcio Moura, que ouviu parte dela, além dos outros cerca de 500 ouvintes que ocupavam o amplo auditório. Creio ter passado o conteúdo e a mensagem que pretendia.

Estar em Vilhena foi agradável, emocionante e vivificador! Encontrei lá vários conhecidos e alguns amigos com os quais convivi em lugares, momentos e circunstâncias diferentes.


Edgard Menezes estava à frente da organização do evento. Formamo-nos na Universidade Federal do Paraná, na antiga Escola de Florestas; ele, uns poucos anos antes de mim. Edgard é batalhador empedernido; há décadas radicado em Rondônia, continua trabalhando incansavelmente pela causa florestal no estado. Foi ele quem me contatou e fez o convite para eu palestrar no evento. Valeu, Edgard! Além da satisfação profissional, seu convite possibilitou-me rever pessoas que estimo, algumas muito, a começar por você!

Reencontrei um amigo da época do curso ginasial, em Cornélio Procópio, Paraná. Havíamos trocado mensagens numa rede social e combinamos de nos ver. Edelcio Vieira foi ao meu encontro no Seminário e levou-me para almoçar com sua família, numa agradável chácara em que mora, tendo como vizinhos um casal de filhos e respectivas familiares. Destilamos muitas e boas lembranças de parte da nossa adolescência. Passamos em pauta: nossas coleções de gibis do Zorro, do Tarzan e de outros personagens em quadrinhos da época; professores do admissão ao ginásio, de datilografia, do curso ginasial; nossas perambulações em busca das paqueras pela principal praça da cidade nos domingos; os bailes do salão paroquial; os vários amigos de convívio; enfim peripécias várias de nossa adolescência comum. Depois repassamos nossas trajetórias pós-Cornélio. Ele se formou em direito e exerce a advocacia nas áreas pública e privada. Enraizou-se em Vilhena. Tem ainda família em Cornélio Procópio e visita a cidade regularmente, mas não pensa em sair de Rondônia. Valeu, Edelcio! Continuaremos em contato, nas redes sociais!


José Nilton, formado na primeira turma de engenheiros florestais da Universidade Federal Rural de Pernambuco, e primeira da região Nordeste, mora e trabalha em Vilhena. Foi meu aluno de Inventário Florestal e de Manejo Florestal, disciplinas das quais tenho orgulho de ter sido o pioneiro na região. No final do evento, sentamo-nos para resgatar lembranças de professores, de alunos, da instituição e de vários episódios da época; além de repassarmos nossas peripécias depois de deixar Recife.

José de Sá, meu ex-aluno de fase mais recente transportou-me e acompanhou-me nos dois dias. Foi duas vezes meu orientado, na graduação e no mestrado, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Continuamos trabalhando juntos desde então. Seguiu carreira universitária; é professor em Rolim de Moura, no curso de engenharia florestal da Universidade Federal de Rondônia – UNIR.

Encontrei Nayara Dorigon Rodrigues, da terra, minha ex-aluna na graduação em 2008/09. Moça bonita, longilínea, de andar elegante, Nayara fez o mestrado na Rural mesmo e hoje trabalha no SEBRAE de Vilhena. Ainda que em apertado espaço de tempo, recordarmos juntos alguns momentos ruralinos.

Eugênio e Chico, da Secretaria de Desenvolvimento Ambiental – SEDAM, participaram de um curso concentrado que ministrei em 2010 em Rio Branco no Acre. Estavam no evento e pudemos conversar e relembrar episódios de nossas vidas, pessoais e profissionais.

Revivi, numa viagem de três dias, fatos, circunstâncias e experiências de cerca de cinquenta dos sessenta e três anos de minha existência. Reencontrei amigos e ex-alunos com os quais convivi no período 1964-2014.

No final de 1999, em um seminário em Rio Branco, Acre, alguns colegas impingiram-me o cetro de dinossauro do evento. Na parte da tarde, ao fazer minha palestra, descartei a ‘homenagem’, pois indentificara no almoço um colega formado cinco anos antes. Mas assumi que seria um dinossauro no ano seguinte quando retornasse a Rio Branco e fosse tomar uma cerveja com a “galera” e um ex-aluno apontasse para mim e dissesse: “...ele foi meu professor no século passado”. Em Vilhena, ao reencontrar ex-alunos do século passado e do atual senti-me sim um “dino florestal”. Mas um dino leve, tranquilo, e ainda lúcido, que se prepara para sair do cenário laboral com a consciência do dever cumprido. “Saber envelhecer”, de Cícero, é minha leitura do momento! Buscarei, conforme ensina na obra o Marco Túlio, a virtude da terceira idade, visto que todas têm as suas.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Da régua de cálculo à internet - II

Estávamos no final dos anos de 1970 e os computadores pessoais (PC’s) não haviam ainda se popularizado, pelo menos no Brasil, pois eram equipamentos caros. Sem dispor de um PC, processei os dados da pesquisa do mestrado no único microcomputador à época existente no Curso de pós-graduação que freqüentava. Fazia meus próprios programas em linguagem Basic, digitava pessoalmente os dados e realizava o processamento em sessões noturnas de amanhecer o dia. 
O editor de texto, este ainda não fora inventado. Escrevi a dissertação numa máquina Olivetti portátil, cujo tamanho do carro permitia acomodar no máximo uma folha de papel ofício na horizontal. Preparar uma tabela demandava muito esforço e tempo. As correções implicavam em datilografar todo ou quase todo o trabalho de novo. Fiz a primeira versão em três semanas, sozinho, e a versão da defesa com a ajuda de um profissional em digitação. Recebi o aval do orientador, defendi a dissertação e alguns dias depois estava no Nordeste, como professor visitante do primeiro curso de Engenharia Florestal criado na região.
Em 1990, ao iniciar o doutorado, comprei finalmente meu primeiro computador pessoal: um XT com monitor preto e branco, ainda sem unidade de disco e sem impressora; operava com dois disquetes, daqueles grandes (mas ainda com pouca capacidade de armazenamento); um disquete era usado para carregar os programas e o outro para armazenar os resultados do processamento. Tive novamente que aprender outra linguagem, o Ms-Dos. Embora fosse um programa operacional, o velho Dos requeria, para seu manuseio, o conhecimento de dezenas de comandos, que corretamente digitados provocavam a interatividade com a máquina e a obtenção dos resultados.
Seis meses depois de adquirir o computador, comprei uma impressora; um ano e meio mais e consegui comprar o disco rígido. Mas no transcorrer do terceiro ano do doutorado o meu XT já era velho e não rodava o programa trazido pelo professor de Estatística Multivariada. Era o Minitab, um programa que combinava certa rigidez matricial com alguma flexibilidade de programação, mas só rodava em computador do tipo 286, uma geração à frente do XT. Passado mais um ano, quando lutava com um programa estatístico (Quatropro) para processar os dados da tese, coletados nos seringais do Antimary, no Acre, o XT teve que ser substituído; não dava conta de rodar u´a matriz com dados de 2.750 seringueiras por 16 variáveis. Abandonei o XT e o programa. Comprei então o mais avançado computador pessoal existente à época, para terminar a tese; era um 486 DX-33 MHZ. Tive que passar por novo aprendizado, para dominar a máquina e os programas. Num livro intitulado “3 em 1” (Windows, Word e Excel), aprendi sozinho o necessário para operar os programas e finalizar a tese. Eu preparava meu próprio banco de dados, processava as informações e transformava-as em resultado científico. Tive muito trabalho para compatibilizar os resultados gerados em outro programa estatístico chamado Statgraph com a planilha Excel do Mister Gates[1]. Tinha que fazer várias transformações dos resultados para gerar os gráficos no Excel e um esforço adicional grande para fazer os resultados estatísticos chegarem aos arquivos do Word.
Inúmeras dificuldades haviam sido enfrentadas ao longo dessa “caminhada tecnológica”. Eu havia manuseado, em três décadas:  régua de cálculo, calculadora de manivela e calculadora eletrônica; máquina de datilografia,  impressoras de tipo, matricial, laser, jato de tinta, e plotter; computadores HP, XT, 286, 486 e Pentium. Isso sem contar bússolas, teodolitos, hipsômetros, clinômetros, dendrômetros, altímetros, sutas, paquímetros, barras de paralaxe, microscópios, micrótomos, estereoscópios, relascópios, telerrelascópios, pentaprismas, máquina universal de ensaio em madeira   e vários outros equipamentos cujos nomes já não recordo[2]. Para comunicar-me com essa parafernália da tecnologia da informação e da comunicação tive que ler inúmeros manuais e aprender as linguagens Fortran, Basic, Dbasic e Cobol; os programas estatísticos ou planilhas eletrônicas Dbasic, Statpac, Statgraph, Lotus e Excel; os sistemas operacionais Dos e Windows; os editores de texto Word Star, Word Perfect e Word for Windows. Sem contar que esses programas eram atualizados com muita rapidez. Mal tinha tempo de dominar uma versão, e outra mais atual já circulava no mercado. Estávamos, os colegas e eu, da pós-graduação, sempre correndo atrás dos manuais e versões mais atualizadas. Ao terminar o doutorado avaliei, retrospectivamente, qual fora o tamanho do desafio do embate com essas tecnologias. Tentei avaliar também o quanto de energia, saúde e tempo haviam sido despendidos para dominá-las, às vezes na marra, muitas vezes só, e sempre em intervalos de tempo cada vez menores.  De outro lado percebia o quanto as tecnologias da informação, da comunicação e do conhecimento facilitavam agora nossas vidas.
No final do ano 2000, seis anos depois da tese concluída, o microcomputador 486 estava aposentado. Meu filho de dez anos de idade fazia pesquisa num site da Internet, para cumprir uma tarefa da escola, usando um Pentium III 700 MHZ, enquanto eu assistia a um programa científico do Discovery na televisão, e minha esposa falava ao celular com o pai dela numa longínqua cidade do Nordeste. Com o controle remoto da TV por assinatura na mão e outro celular na cabeceira do sofá, dei-me por conta de que os três, juntos, estávamos operando várias tecnologias. A tecnologia da informação unira-se à tecnologia da comunicação e fizera-nos ingressar na sociedade do conhecimento. Fiz uma viagem no tempo, trinta anos haviam-se passado. Percebi então que a régua de cálculo do cursinho virara peça de museu. Teria que explicar ao meu filho para que servira aquele objeto no passado. E fiquei imaginando como explicará ele aos meus futuros netos, daqui a trinta anos, para que servia o Pentium III e como era essa tal de Internet no final do milênio?
 [1] Bill Gates, da Microsoft.
[2] Aparelhos e equipamentos utilizados em várias atividades da Engenharia Florestal, envolvendo desde a medição de árvores à interpretação de imagens de satélite.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

DA RÉGUA DE CÁLCULO À INTERNET - I

Valho-me, neste e no texto seguinte, de algumas siglas, para ilustrar o meu embate pessoal com as tecnologias da informação e da comunicação até chegar à tecnologia do conhecimento.
Cheguei à capital de um estado sulista vindo de uma cidade do interior, para fazer curso pré-vestibular, em 1971. Na primeira aula do cursinho enfrentei um provão. Era a maneira adotada pelo Curso para avaliar o nível (ou desnível) dos candidatos que chegavam. Muitos, como eu, vinham de cidades do interior do estado e muitos outros vinham de remotas cidades de estados vizinhos ou mesmo de estados distantes. Uma régua de cálculo foi oferecida a cada um para resolver algumas questões de matemática da prova. Eu já tinha manuseado uma régua de cálculo no curso científico, mas estava bastante desatualizado. Foi-me, portanto, de pouca utilidade aquele artefato tecnológico. A nota que obtive nesse provão deixou-me ao mesmo tempo assustado e desolado; mas como a média geral fora bastante baixa, acabei me consolando com o resultado.
Quando iniciei o curso de graduação no ano seguinte, aprendi a primeira linguagem de computação. Chamava-se FORTRAN e era uma linguagem estruturada, com vocabulário em inglês, para resolver problemas nas áreas de engenharia. O uso do FORTRAN na solução de um problema passava pela elaboração de um programa de computador, transcrito em cartões perfurados. Programas complexos demandavam a perfuração de centenas de cartões, podendo chegar a mil deles, ou até mais. Não bastava, no entanto, o conhecimento da linguagem para se fazer os programas. Era preciso aprender a formular complexos algoritmos matemáticos, aprofundar conhecimentos de lógica e elaborar intrincados fluxogramas. Feito o programa, o passo seguinte era deslocar-se até o Centro de Processamento de Dados (CPD) da Universidade para perfurar cartões, em máquinas perfuradoras enormes. O Centro dispunha de um grande salão com várias máquinas, onde estudantes dos mais distintos cursos faziam fila para ocupá-las e perfurar os seus cartões. Estes, depois de perfurados, eram entregues num guichê do CPD para serem processados. Um funcionário recebia maços e maços de cartões, envoltos por elásticos. Os computadores eram, na época, entidades distantes do alunado. Eram quase divindades. Nosso único meio físico de contato com aqueles gigantes do processamento de dados eram os nossos cartões perfurados, com a intermediação do funcionário que nos atendia. Três ou quatro dias depois voltávamos ao CPD, quase sempre ansiosos, porque a expectativa era sempre de que um ou outro cartão fora perfurado errado, o programa não “rodava” e o resultado não saía. Quando isso acontecia, perfurávamos alguns cartões novamente, entregávamos de novo o maço completo e aguardávamos mais três ou quatro dias pelo resultado. Era a época dos grandes Centros de Processamento de Dados, época em que a tecnologia da informação apenas armazenava dados.
Meus primeiros trabalhos de uma das disciplinas do ciclo profissionalizante foram feitos numa calculadora Facit, de manivela, cujo manuseio exigia muitas voltas para frente e outras tantas para trás para cada operação matemática a ser feita. No último ano da faculdade comprei, numa viagem a Manaus, uma calculadora eletrônica que operava com logaritmo e potência fracionária. Era um grande avanço poder fazer cálculos diretamente com logaritmos, dispensando o uso de tabelas. Embora fosse considerada de bolso, a calculadora era grande; não cabia em bolso nenhum. Esse artefato tecnológico facilitou muito a minha vida nas provas da faculdade. Guardo-a até hoje como recordação daqueles alegres tempos de universidade e como equipamento relíquia do meu processo de aprendizado.
Quando iniciei o mestrado, em 1976, deparei-me de novo com a linguagem FORTRAN, agora num nível mais elevado. Formulação de algoritmos, lógica de programação e a feitura de fluxogramas foram vistos em profundidade. No ano seguinte, uma empresa francesa de equipamentos de informática associou-se com uma empresa brasileira que elaborava programas, instalou-se no Brasil e levou o nosso professor para dirigi-la. Ao deixar a Universidade o mestre sugeriu meu nome para assumir a disciplina Programação FORTRAN. A coordenação do Curso acatou a sugestão e convidou-me. Vi-me, de repente, na condição de aluno e professor do mesmo curso. E Lá estava eu de novo no CPD, agora com alunos de mestrado, ensinando-os a perfurar cartões. Dois fatos novos mudariam, no entanto, o rumo da informática no Curso. Primeiro, o Governo Federal iniciara a implantação de um grande programa de substituição dos computadores das universidades. Os CPD’s de 21 instituições receberam novos computadores, passando a operar com o DEC SYSTEM10. Tive que fazer um curso de reciclagem para poder ter, e dar acesso aos alunos, aos novos computadores. Segundo, o nosso Curso de Mestrado recebeu o seu primeiro microcomputador. Tinha ainda pouca capacidade de memória, operava com u´a máquina de datilografia elétrica adaptada como impressora e armazenava dados em fita cassete. Mas mesmo com essas limitações esse microcomputador passou a ser muito demandado pelos estudantes da pós-graduação. Tive que aprender minha segunda linguagem de programação. Era a linguagem BASIC. A vantagem é que já era possível interagir diretamente com a máquina. Os mestrandos podiam agora sentar à frente do teclado, digitar dados, preparar bancos de dados, elaborar os programas, processar esses dados, imprimir tabelas, produzir seus próprios resultados e armazená-los diretamente em fitas cassete personalizadas. Ainda não dispúnhamos de um processador de texto, mas os benefícios trazidos por aquela máquina para um grande número de mestrandos foram incalculáveis.